Há uma série de indústrias particularmente estúpidas, o que torna realmente complicado dizer que esta ou aquela é realmente a mais estúpida que existe. Uma séria concorrente a este “prémio” é a indústria farmacêutica, que tem a vantagem de despir completamente a lógica capitalista de toda a sua possível humanidade. É uma característica comum a todos os negócios que têm alguma facilidade de assumir uma indispensabilidade à sobrevivência humana, como são os negócios ligados à saúde, por exemplo. Além disso, em qualquer um dos estratos da sua hierarquia, começando no ponto mais alto e acabando cá em baixo, esta indústria é caracterizada por reduzir o ser humano a “nada”, subsumindo-o à sua lógica puramente lucrativa, da forma mais descarada. Podemos começar pelo topo, mesmo lá na autodenominada indústria, e apontar como exemplo as experiências em seres humanos feitas em países africanos (para não falar nas mais discutíveis experiências em animais). Mas também podemos agarrar esta notícia e tomá-la como um exemplo, no outro extremo mais baixo (as farmácias), da desumanidade e da lógica crua do capitalismo.
A situação é tal, nos nossos dias que este tipo de discurso, raramente é desconstruído e nem os média, supostamente encarregados de informar, têm a capacidade de o fazer. E sublinhe-se que desmontar esta lógica de “concorrência” e outra linguagem economicista aí encontrada, mesmo a mais camuflada, não se trata propriamente de um delito de opinião. Seria mesmo informação, pura informação. Afinal, julgo que tirando os mais acérrimos defensores de tal sistema, todos somos capazes de reconhecer que a saúde não devia constituir um negócio, muito menos um negócio tão poderoso quanto é a indústria farmacêutica. Dizendo de uma forma mais fácil, havendo forma de garantir uma saúde o mais digna e plena possível, não consigo compreender como é que esta apenas pode estar ao alcance daqueles que têm dinheiro para a comprar. Mas é uma triste realidade, e uma prova disso mesmo é a força com que esta ideia está implantada nas consciência desta sociedade, totalmente rendida a este sistema que minou todas as áreas possíveis da vida humana e que tudo reduziu à sua insignificância mercantil.
A propósito disto, pode também referir-se a mais recente proposta de Paulo Portas: a unidose (que, na realidade, já é uma ideia bem antiga). Enquanto esta ideia não se adaptar à lógica do lucro, nunca será implantada. Por muito que possamos ver a maioria dos partidos a defender esta ideia, rapidamente surgem estudos e opiniões de especialistas a frisar a sua inviabilidade e inconsequência. Não é este o argumento que usam, mas o motivo por detrás de tais estudos é o facto óbvio de que seria um atentado às farmácias e indústria farmacêutica no geral, prejudicando seriamente os lucros que movimenta. Veja-se que esta até se sente lesada pela “concorrência desleal” ou pela “discriminação positiva” de outras farmácias. Agora imaginem se o próprio Estado fosse ainda mais longe, permitindo a compra do “essencial”, ou seja meia dúzia de comprimidos, anulando assim a obrigatoriedade de ter que comprar uma caixa inteira.