A ameaça terrorista dos “lenços árabes”
Janeiro 26, 2008 por Diogo Duarte
Diga-se o que se disser, e independentemente de todos os pruridos em afirmá-lo, o terrorismo ajuda acima de tudo o Estado. É uma das melhores armas de controlo social que pode existir. Na realidade, dificilmente podemos apontar algo tão poderoso, “moderno” e eficaz na manipulação do medo. O terrorismo serve para tudo: tanto para argumentar a favor da indústria cultural (contra a pirataria), como para aumentar os níveis de vigilância e de controlo policial, ou, tão simplesmente, o que subjaz a isso tudo: o tal medo.
Não é por acaso que, ao olharmos para a história de muitos países, encontramos acções terroristas planeadas por dentro, i.e., pelo próprio Estado, de forma a assim justificar uma qualquer medida repressiva, seja um ataque a um país exterior, a prisão de alguém potencialmente ameaçador residente no país ou a repressão de qualquer grupo.
Desde o 11 de Setembro que esta dimensão do terrorismo se acentuou ainda mais. A tal ponto que eu quase que aposto que até no Portugal mais ostracizado as pessoas sabem quem é o Bin Laden e temem um atentado terrorista, ou qualquer outra ameaça externa, nas imediações.
Nos últimos dias explodiu aí com força a notícia de que a policia espanhola comunicou a Portugal a possibilidade de um atentado terrorista no nosso solo. Claro que os portugueses, apesar de terem negado esse perigo, deixaram claro que “é um perigo potencial que deve ser levado a sério”. Afinal, um argumento deste calibre não se pode deitar fora assim à toa. Mesmo que venha dum país que investiga ligações da ETA com algo quanto improvável como o movimento Okupa e os anarquistas, que só se situam no outro extremo ideológico (apesar de enfiarem tudo no mesmo saco da “extrema-esquerda”).
Em Portugal, como praticamente não há anarquistas, o terrorismo, por enquanto, vai servindo bem para controlar a imigração e aumentar os discursos xenófobos. A mais bela manifestação deste facto foi o que sucedeu há uns 3 ou 4 dias atrás, quando tiveram que fechar uma das linhas do metro de Lisboa devido a uma mala suspeita que aí se encontrava. E o que é que uma mala, ou um saco, pode ter de tão ameaçador assim, capaz de motivar a sua explosão e o encerramento de uma linha de metro inteira durante umas quantas horas? Segundo a porta-voz da PSP, Paula Monteiro, o saco estava coberto com um “lenço árabe”, o que “ajudou a levantar suspeitas sobre o seu conteúdo”. Para além desta operação ter sido puro show-off (não um show-off qualquer, mas um show-off de autoridade), carrega em si um discurso tão xenófobo que até dá dó. Mas para lá do mais óbvio que me recuso a ter que escrever, desde quando é que um “lenço árabe” é assim tão “ameaçador”? Até no mercado mais rosqueiro deste país se encontram lenços destes!
Mas pronto, fica a mensagem: quando virem um lenço árabe rebentem logo com ele, não vá o gajo ter mesmo um árabe daqueles “a sério” lá debaixo.
Vale a pena ler:
A síndrome do obscurantismo
ROBERT KURZ
http://obeco.planetaclix.pt/rkurz56.htm