O “papão” vegetariano
Janeiro 16, 2008 por Diogo Duarte
Falar com alguém sobre vegetarianismo/ veganismo não é tarefa fácil. Mais do que os preconceitos que rodeiam o assunto, muitas vezes pouco inocentes, é preciso ter em conta que é um assunto que questiona muitas coisas que damos como adquiridas praticamente desde que nascemos. A não ser que seja motivado a fazê-lo, ninguém olha para um bife no supermercado e se lembra duma vaca ou dum porco. É simplesmente um bife. Além disso, questionam-se valores demasiado sólidos com argumentos que a serem levados a sério poderiam pôr em causa muitas das nossas certezas mais básicas – daquelas que todos necessitamos para ter alguma sanidade mental.
Eu já estive dos dois lados. Já ofereci resistência, defendendo-me com o pouco que sabia, geralmente preconceitos, e ainda mais com o que não sabia, ao mesmo tempo que no meu interior algumas questões fundamentais ganhavam força. Agora, quando por qualquer motivo alguém me indaga sobre o facto de ser vegetariano, opção que tomei há cerca de 7 anos, sou geralmente confrontado com essa mesma atitude que também eu já tive. De facto, há que assumir que é uma questão complicada, polémica, muito discutível e nada fácil de debater com rigor.
Deve ser sublinhado que apesar de a maioria dos preconceitos sobre o vegetarianismo/ veganismo serem na sua maioria negativos, também existe o contrário. Há quem considere que só por deixarmos de comer carne e peixe ficamos automaticamente mais saudáveis, descuidando a sua alimentação e reduzindo-a a um prato de batatas fritas. Mais tarde, estes passam a ser os principais defensores de que tal dieta é nociva para a saúde, pois ficaram anémicos, etc. etc., esquecendo que uma alimentação descuidada, quer ela seja omnívora, canibal ou vegetariana/ vegan, terá sempre consequências para a saúde do próprio.
Há ainda outros factores que mancham a imagem do vegetarianismo/ veganismo, para além da incompreensão de muitos que tomam tal opção perante aqueles que se recusam a fazê-lo: o facto de este ser adoptado como uma dieta fashion ou para emagrecer, mais uma vez com consequências menos positivas para a saúde, como acontece com qualquer dieta descuidada.
Os média, que supostamente têm a tarefa de informar, contribuem muitas vezes para a imensa desinformação que paira em torno do vegetarianismo/ veganismo. É exemplo disso a reportagem que passou na SIC no passado domingo, salvo o erro. Nela era apresentado um jornalista que decidiu “experimentar” ser vegan durante cerca de dois meses, acompanhado por uma médica do hospital de Santa Maria que verificou as suas análises passado esse período, comparando-as com outras anteriores. Os resultados e conclusões a que chegou, tcharan, foram, como afirmou a médica, surpreendentes, tendo as análises revelado mudanças drásticas e algumas carências consideráveis a nível vitaminico. Sublinhe-se apenas que a transição foi feita sem qualquer tipo de acompanhamento ou informação especializada (eu também não tive acompanhamento de médico algum mas mantive-me sempre bastante informado), de forma imediata e descuidada, para além de condicionada por todos os factores que rodearam o aparato de tal mudança na vida do personagem apresentado. As consequências, como se pode imaginar, não podiam ser outras. A peça jornalística, por outro lado, assim como as considerações da médica consultada, são duma falta de rigor algo assustador e, como tal, as lacunas que apresentou podiam ser contornadas.
Para a maioria das pessoas tal reportagem não tem grande importância, afinal apenas reforça alguns dos seus preconceitos mais básicos e desfundamentados. No entanto, o vegetarianismo, tal como o veganismo, têm conhecido um crescimento cada vez maior no seio da população, sendo que há cada vez mais pessoas a aderir. A transição não é fácil e é afectada por muitos factores que vão para além da eliminação dum hábito que carregam algumas vezes durante muitos anos: o consumo da carne. A maior pressão vem de fora: dos pais, da família, dos amigos, que, desinformados, alertam constantemente para a doença iminente, para os riscos que tal dieta acarreta, para a parvoíce e radicalismo que a caracteriza, entre outras desconsiderações que roçam a ignorância e a falta de respeito com frequência. Uma peça como aquela só vem dificultar mais o problema para quem tomou recentemente tal decisão. Eu, como devem imaginar, em 7 anos de vegetarianismo tenho pouca coisa para provar a alguém, já que ainda estou vivo e com igual ou mais saúde ao período anterior à mudança. Felizmente, o meu médico de família também é vegetariano e, portanto, nunca me chateou. Mas sou capaz de imaginar o que me muita gente deve estar a sofrer em casa neste momento, com os pais, amigos e familiares a chatear a cabeça porque afinal a dieta vegetariana/ vegan é mesmo prejudicial, etc. etc.
Só posso dar um conselho às pessoas que a consideram nociva, seja porque razão for: informem-se, leiam, conversem e informem-se outra vez. Ser vegetariano/ vegano não é ir ao restaurante comer saladas ou couves com batatas, nem tão pouco se limita a comer batatas fritas e a apanhar sol. É, indiscutivelmente, se adoptada com cuidado, uma opção muito mais saudável que a alimentação comum e, acima de tudo, muito mais ética.
Em resposta à reportagem da SIC, muitas cartas foram enviadas. Recomendo esta publicada no Centro Vegetariano, assinada por dois médicos, um vegetariano e outro omnívoro:
Carta Aberta à Visão e SIC sobre repórter vegano durante 2 meses
plenamente de acordo Diogo. uma boa discrição do que se passa com a opinião pública sobre o vegetarianismo
concordo em boa parte com o que dizes, no entanto há alguns matizes que gostaria apontar. Uma pessoa pode tornar-se vegetariana pelas mais variadas razoes. no entanto sucede em boa parte dos vegetarianos que conheço e que juntam ao seu vegetarianismo uma determinada postura politica o aparecimento de uma nova intransigencia a partir do momento em que tomam essa decisao. quero com isto dizer que se tornou hoje em dia uma especie de qualidade extra, dentro do que é o movimento alternartivo, ser-se vegetariano. Vi há algum tempo um pedido de libert´çao de um preso que dizia, entre uma das suas qualidades, vegetariano. Eu nao sou vegetariana. mas vivo rodeada de veggies…..a quem entendo e respeito. Mas o que eu nao tenho paciencia, é para a intransigencia e falta de capacidade de discussao e sentido critico. Como é evidente estas chocado com a forma como a sic tratou o “mundo vegetariano”. Eu fico igualmente chocada quando vejo em meios informativos nao burgueses autenticas descriçoes alarmistas, que pretendem chocar e que deveriam ser usados com alguma prudencia. ë dificil exigir o que nao se cumpre. mas é tambem necessario que as pessoas percebam que quem come carne nao tem necessariamente que ser um atrasado mental sem coraçao. um pouco de sentido critico e menos borreguismo.
Eu não vejo mal algum em associar ao vegetarianismo uma postura política e não vejo essa associação como prejudicial ao movimento alternativo. São duas coisas entre as quais podes encontrar ligações profundas. No entanto, reconheço a intransigência de que falas e é um facto infeliz. Mas não me parece que isso seja tanto por se ter tornado uma “qualidade extra”. Diria até que é um complexo de inferioridade e não tens que passar cartão que é o que eu faço com a intransigência dos não-vegetarianos.
Falo-te da intransigência dos não-vegetarianos porque ela também é um fenómeno curioso. Eu por exemplo, como percebeste, sou vegetariano há já alguns anos. O “meio alternativo” com que contacto, ou seja, pessoal anarquista, etc., 90% não é vegetariano nem pensa em tal coisa. Eu também não faço do vegetarianismo bandeira perante eles e até se proporcionar uma refeição conjunta as pessoas vivem alheadas desse facto. A parte curiosa surge então quando percebem que sou vegetariano por qualquer motivo. São imensas as reacções e podes crer que é pura intransigência. Desde peças tão fascinantes como, “eu já fui vegetariano durante um mês mas fiquei com anemia”; “xi os vegetarianos são muitos radicais, não dá para falar com eles”; “não percebo como é que se é vegetariano com tantas pessoas pobres e a passar fome”. Isto é tudo ridículo, acho que reconheces. Mas é mais comum do que parece. Por isso inverto o que disse aí em cima: o complexo de inferioridade é mútuo. Também os não vegetarianos às vezes parece que têm necessidade de sublinhar quão nocivo é o vegetarianismo, como afinal até eles foram vegetarianos mas foram iluminados por uma anemia que lhes mostrou que estavam errados. Garanto-te, se tiveram anemia o melhor que fizeram foi deixar de ser vegetarianos, era sinal que não tinham cuidado.
Mas esse complexo de inferioridade é ridículo dos dois lados, atenção, afinal defendo o mesmo que tu: respeito, compreensão, se é que tem que haver alguma (afinal são opções, políticas ou não), e diálogo racional (já agora, interesse para esse diálogo também). É até por isso que evito tocar no assunto, pois já sei que o que advêm é geralmente um debate irracional, não muito proveitoso para ninguém.
Relativamente a isso do prisioneiro político, não me parece que ser vegetariano seja enunciado como uma qualidade. Ser vegetariano é, se virmos bem, também uma identidade, e identificares alguém com isso, neste caso um prisioneiro político, apenas está a enunciar algo mais que pode reflectir a condição do prisioneiro ou, por outro lado, ser outro factor de solidariedade. Sabes que um vegetariano que geralmente faz parte de movimentos alternativos está também ligado a causas ecológicas. Assim, dizer que se é vegetariano não é mais do que dizer que é activista, anarquista, ciclista, etc etc, todas essas coisas que costumam ser usadas para identificar os prisioneiros políticos.
eu acho que não se trata de se considerar alguém que come carne “um atrasado mental sem coração”. até porque o vegetarianismo tende para ser uma opção bastante egoísta - na minha opinião, enquanto vegetariano, não vejo a minha atitude como algo que vá influenciar a sociedade de imediato, mas sim como algo para conforto pessoal, para não compactuar com certas situações.
a verdade é que muitas vezes o vegetariano está sujeito a algumas pressões por ainda ser uma minoria (mesmo que em crescimento) na nossa sociedade. é facto que esse “isolamento” seja algo não muito simples de lidar com, mas não é nada de grave, também. como disse o diogo, se nos mantivermos informados, sabemos qual a melhor opção a tomar (seja ela o omnivorismo, ou o vegetarianismo, ou o canibalismo).
Obrigado pela resposta, estou como já tinha dito, estou de acordo com grande parte do post. Em relaçao à intransigencia, é bem verdade que é mutua, e ocorre por nao respeitar o principio basico de saber ouvir o que os outros tem para dizer.
Continuo, isso sim , a nao achar muita piada ao termo vegetariano quando usado nao como uma opçao(que evidentemente também pode ser politica), mas como uma qualidade inerente a qualquer boa pessoa. reconheço que depende muito muitíssimo do meio em que uma pessoa se move, mas acontece.