A pirataria e o terrorismo voltam a atacar
Julho 29, 2007 por Diogo Duarte
Aqueles que exploram a classe artística sem qualquer tipo de escrúpulos, continuam a sua campanha contra os terríveis piratas informáticos que descarregam gratuitamente CD’s e filmes na internet, com o mesmo despudor dum traficante de droga ou dum ladrão de automóveis. Este tipo de crime moderno, também já considerado uma nova forma de terrorismo, é mais conhecido por “pirataria”. Para estes senhores, das grandes editoras, das SPA’s e de máfias semelhantes, a pirataria não é apenas a origem dos males dos artistas mas é também uma das causas de grandes males do mundo aparentemente sem relação, como o terrorismo. Na sua cruzada, nunca se cansam de sublinhar como a pirataria informática está por detrás dos grandes terroristas e que fazer o download de um CD sem respeitar os direitos de autor, é o mesmo que roubar um automóvel, um frigorifico, uma casa ou traficar droga.
Mas não é preciso ser muito atento para perceber que a campanha que levam a cabo com tanto fervor está bastante longe da realidade. O problema que apontam como sendo a origem dos males dos artistas apenas é, na realidade, uma ameaça aos interesses dos que os exploram. Infelizmente, por muito absurda que a campanha seja, esta sempre vai dando os seus frutos, e é ver inúmeros músicos, escritores e outros da mesma espécie, a defender com unhas e dentes interesses que julgam ser os seus mas que não são mais do que os interesses das editoras.
Apesar de tudo, a sua absurdidade mais do que o seu realismo, continua a singrar e a caracterizar esta campanha mediática. Mesmo com tanta insistência, nas declarações e entrevistas concedidas aos media, na ideia de que a pirataria financia o terrorismo, ainda são poucos os que acreditam em tal invenção. A única coisa que ainda permite que esta continue a ser proferida, é o tempo de antena concedido por esses órgãos de comunicação social. Mas esta insistência tem sempre o efeito de alienar mais umas mentes e alimentar o terror na consciência das pessoas, já suficientemente perturbadas com a possibilidade haver um terrorista em cada esquina para ainda se sentirem bem moralmente a pactuar com um terrorista dentro da própria casa – leia-se, um filho que faça downloads na internet.
Este ataque massivo de afirmação estapafúrdia da indústria cultural atingiu o auge com o encerramento de três sites portugueses de partilha de ficheiros. Não que com isto tenham impedido os milhões de terroristas portugueses que fazem downloads da internet de o continuarem a fazer. Mas conseguiram o importante: garantir mais tempo de antena e mais umas entrevistazinhas. Assim podem continuar a partilhar os seus devaneios distópicos de um mundo em que o direito de aceder livremente à cultura é equiparado ao de traficar droga ou financiar a Al Qaeda. Entre algumas dessas entrevistas, destaco a concedida por Eduardo Simões (Director-Geral da Associação Fonográfica Portuguesa) ao Diário de Notícias.
Consciente da tarefa difícil que a indústria cultural tem pela frente, atingida por cada vez mais “traições” dos próprios artistas, Eduardo Simões não tem meias medidas e propõe mesmo que este tipo de informação “anti-pirataria” seja incluída nos currículos escolares. Não é assim tão parvo este senhor, pelo menos vive bem consciente do poderoso efeito propagandístico que a escola tem nos dias que correm.
Eduardo Simões, como não podia deixar de ser, também menciona o financiamento de actividades terroristas através da pirataria, dando os exemplos do IRA e da Al Qaeda, e relembrando que “nos ataques de 11 de Março, em Madrid, foi apreendida uma carrinha cheia de capas de CD pirata” – vejam bem! No entanto, lembra que em Portugal este tipo de ligações com outras actividades criminosas apenas acontece com a pirataria física e, que se saiba, não com a digital. Isto é interessante. Como referi, não é pelo encerramento destes três sites que alguém vai deixar de fazer downloads na internet, pois apenas tem um efeito mediático e não é mais do que uma espécie de acção de propaganda. Mas se levarmos a sério o carácter revolucionário com que a acção de encerramento dos sites foi apresentada, como um passo importantíssimo no combate à pirataria e, consequentemente, a uma forma de criminalidade poderosíssima, não podemos deixar de ficar confusos. Então se em Portugal o apoio a outros tipos de criminalidade se dá através da pirataria física e não digital, não estarão estes senhores a alimentar o financiamento de terroristas, ao contribuir para que aqueles que faziam downloads através destes sites passem a ir comprar às feiras os filmes e CD’s que dali descarregavam?
Ainda há mais. Sem esquecer a campanha do medo, importantíssima na manutenção dos interesses dos poderosos e nestas questões de ordem pública, o referido elemento da AFA não deixa de lembrar que “nem aqueles que contribuem para que estes serviços existam nem aqueles que os utilizam estão a salvo de poder vir a ter problemas caso pratiquem actos ilegais”. Portanto, preparem-se para umas possíveis violações dos vossos direitos, ao espiolharem o que descarregam da internet, como o fazem, por onde navegam e esse tipo de coisas. Mas não são necessárias grandes preocupações. Se alguns milhares de lisboetas têm infringido diariamente os limites de velocidade fixados pelos radares e, sabem agora, que não vão haver meios para cobrar todas as multas passadas, imaginem como seria se tivessem que cobrar multas aos milhões de portugueses que diariamente fazem downloads da internet.
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