A antropologia, pela sua abrangência, é uma área capaz de suscitar facilmente o interesse das mais diferentes pessoas. Quando há alguns anos comecei a incluir nas minhas leituras material com um conteúdo mais social, a antropologia começou a despertar em mim um certo interesse e, por vezes, algum fascínio. Na maior parte desse período, deixei por corresponder esses sentimentos que começavam a crescer, nunca tendo feito nada para os aprofundar ou alimentar. A par dessa curiosidade, ainda “leviana”, pela antropologia, as ideias e autores anarquistas já faziam parte dum interesse mais profundo que fui desenvolvendo ao longo dos últimos anos.
Acho que todos concordam que uma forma interessante de iniciar o contacto com uma determinada área que nos desperta curiosidade, é fazê-lo procurando ligações com outras áreas em que possuímos mais conhecimento ou sobre as quais recai um interesse mais aprofundado. Pelo menos, quando essa ligação parece legítima ou aparenta possuir alguma possível utilidade.
Há coisa de uns dois anos, um grande amigo, no seguimento de algumas conversas e indecisões relativamente ao nosso futuro, enviou-me em PDF um livro que abordava conjuntamente os dois tópicos: o anarquismo e a antropologia. Confesso que, inicialmente, não me entusiasmei muito, pois quem estiver dentro do assunto saberá que é mais fácil encontrar a palavra anarquismo ao lado de qualquer tema possível e imaginário do que ir a Roma e conseguir ver o Papa. Mas, inevitavelmente, acabei por pegar no livro e este rapidamente me prendeu. Um pequeno texto escrito sobriamente, com algumas ideias inovadoras e bem fundamentadas.
Já aqui falei desse livro quando escrevi o texto Sem Estado, um texto pequeno que, sem ter grandes pretensões a ser original, pretendia introduzir algumas ideias para uma discussão que eu considero cada vez mais necessária. O livro em questão é Fragments of Anarchist Anthropology, escrito pelo antropólogo David Graeber e publicado na Prickly Paradigm, a editora de Marshall Sahlins, um dos maiores antropólogos contemporâneos.
No livro, como já deu para perceber, Graeber pretende introduzir na discussão social e académica um assunto tão marginalizado como maldito: o anarquismo. Descrevendo como estes dois campos podem ser importantes um para o outro, como a antropologia pode enriquecer a teoria e prática anarquista e dissertando sobre as razões pelas quais o anarquismo permaneceu afastado da academia, Graeber constrói um dos livros mais estimulantes para as duas áreas dos últimos anos.
No entanto, apesar da sua riquíssima e importante obra, a renovação do seu contracto com a Universidade de Yale, onde leccionava há alguns anos, foi inexplicavelmente recusada. Pelo seu curriculum invejável e crescente importância para a antropologia social, a decisão foi recebida com surpresa, não só pelo próprio como por colegas de todo o mundo. Até hoje, apesar de as razões para o seu afastamento serem obviamente motivadas por razões políticas (seja pelo seu activismo ou pelas ideias que sempre defendeu abertamente), Graeber nunca recebeu qualquer justificação para o sucedido. Actualmente, terminado o vinculo com a universidade em Junho deste ano, Graeber tem quatro livros prestes a ser publicados e aceitou o convite da University of London para aí passar a leccionar e continuar a desenvolver a sua investigação.
Para quem tiver interesse em aprofundar o contacto com as ideias deste antropólogo e activista, deixo o vídeo da entrevista realizada por Charlie Rose em 2006. Uma entrevista de cerca de 20 minutos onde Graeber fala de anarquismo, antropologia, globalização, história e mudança.
Outras entrevistas:
- An Interview with David Graeber by Joshua Frank, Counterpunch.org:
“One thing that I’ve learned in academia is no one much cares what your politics are as long as you don’t do anything about them. You can espouse the most radical positions imaginable, as long as you’re willing to be a hypocrite about them. The moment you give any signs that you might not be a hypocrite, that you might be capable of standing on principle even when it’s not politically convenient, then everything’s different. And of course anarchism isn’t about high theory: it’s precisely the willingness to try to live by your principles.”
- David Graeber on Anarchism, Madagascar and Magic
“(…)if you look at the world from a long-term historical perspective, it just seems obvious to me that current arrangements cannot last. Capitalism particularly by the way. Everybody has a different definition but the one thing everyone agrees is that capitalism is based on an imperative of infinite growth: if a firm doesn’t grow, it fails; if your GDP doesn’t grow, you’re a failed country…. Don’t get me wrong: if you want the economic system that will produce the maximum number of consumer goods, capitalism is definitely the thing. But infinite growth is simply not sustainable - it wasn’t when you only had twenty or thirty percent of the world’s population in consumer economies, and certainly isn’t once you have countries like India and China as equal players in the game. So something’s going to give, and it probably won’t take all that long, because history in general seems to have accelerated lately. Of course, we have no idea whether what comes afterwards will be better, or even worse. This is why I think it’s so important we at least start talking and thinking about what might be better. But the moment you start looking at revolutionary paradigms as inherently legitimate, it becomes obvious that most of those that were popular in the 20th century are entirely discredited, and mostly for good reasons: anarchism is one of the few that stands intact. And in fact that’s where all the creative energy is really coming out of.”
- Interview with David Graeber by Mark Thwaite
“(…) are we really at a point where we could just make the state disappear? Would alternative institutions simply arise immediately and spontaneously or would we have to slowly build them first? There’s a lively debate about that as you might imagine. I don’t know. But anarchists are certainly trying to help build alternatives. Our only proviso is that we don’t want to do it through the state, because we think the state is a form of violence and you can’t build freedom at the point of a gun.”
O ESTADO é muito mais do que se disse…o estado é um processo mental.De facto as hierarquias e as relações de poder estão na nossa cabeça, fruto da educação na família, na escola, nas igrejas, nos exércitos.O estado é um ESTADO MENTAlL que nos leva à servidão voluntária.
De facto, como diz Nietzche, só há amos e escravos…
Só que todos reproduzimos este duplo papel, viabilizamo-lo.
Libertarmo-nos disto é perder o medo, sermos donos de nós.
Depois vem a autonomia, a autogestão, a associação voluntária..
[...] também reflectir sobre algo que David Graeber já escreveu umas linhas, i.e., a relação da academia com o anarquismo, até porque este debate [...]